O que está em jogo para o servidor público? Discurso de eficiência não pode esconder o futuro das carreiras


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Por: Débora Almeida

Entre promessas de enxugamento, inteligência artificial e controle de gastos, servidores precisam olhar além dos discursos e identificar quais projetos realmente defendem o serviço público e seus direitos

Em ano eleitoral, palavras como eficiência, economia, modernização e redução de gastos costumam ganhar espaço nos discursos. Para quem trabalha no serviço público, porém, é preciso ir além das palavras de ordem.

Por trás de cada proposta de reorganização da máquina pública existem consequências que podem alcançar diretamente carreiras, concursos, remuneração, condições de trabalho, aposentadorias, serviços prestados à população e a própria estrutura do Estado.

Declarações recentes de integrantes de uma das equipes econômicas que disputam espaço no cenário eleitoral reacenderam esse debate. Entre as propostas apresentadas estão a redução do número de ministérios, o enxugamento da estrutura administrativa e a revisão de determinadas carreiras diante do avanço da inteligência artificial. Esse cenário acende um alerta para o risco de um  “tesouraço” no serviço público, com cortes que podem comprometer estruturas, carreiras e a capacidade de atendimento à população. A justificativa apresentada é a busca por uma máquina pública mais eficiente e produtiva.

A questão que precisa ser feita, entretanto, é outra: eficiência para quem e a que custo?

Modernizar não pode significar substituir pessoas por números

É evidente que o serviço público precisa acompanhar as transformações tecnológicas. A inteligência artificial já faz parte da realidade de diversas áreas e pode contribuir para agilizar processos, reduzir burocracias e melhorar o atendimento à população.

Mas tecnologia não substitui automaticamente conhecimento, experiência, responsabilidade e compromisso com o interesse público.

Quando se fala em utilizar a inteligência artificial para reduzir estruturas ou reavaliar carreiras, é necessário perguntar quais funções serão atingidas, como ficará a prestação dos serviços e qual será o papel dos trabalhadores que construíram essas políticas públicas ao longo dos anos.

A discussão sobre eficiência precisa considerar também aquilo que muitas vezes não aparece nas planilhas: o impacto da falta de servidores nos órgãos públicos, o aumento da demanda sobre quem permanece e a consequência disso para quem depende dos serviços oferecidos pelo Estado.

E o salário de quem mantém o serviço funcionando? Outro ponto merece atenção.

Não existe serviço público de qualidade sem trabalhadores valorizados. A história recente mostra que a política tem impacto direto sobre a vida dos servidores.

Entre 2019 e 2022, os servidores públicos federais do Executivo passaram quatro anos sem reajuste salarial geral. A ausência de recomposição, em um período de inflação elevada, significou perda do poder de compra e aumento da defasagem remuneratória para diversas categorias.

Por isso, quando uma proposta fala em controle de despesas, o servidor precisa saber exatamente o que está sendo considerado despesa e o que está sendo considerado investimento.

Salário é despesa? Carreira é despesa? Concurso é despesa? Serviço público é despesa? Ou são investimentos necessários para garantir que o Estado funcione?

Essa diferença não é apenas semântica. Ela pode determinar o futuro de milhares de trabalhadores.

Não basta dizer que direitos serão preservados

Declarações públicas recentes também buscaram tranquilizar os servidores, com a afirmação de que não haveria redução de salários nem alteração das regras de estabilidade. Mas, para quem vive do serviço público, promessa não deve ser analisada isoladamente.

É preciso observar o conjunto. Qual é o projeto para as carreiras? Haverá concursos? Haverá reposição salarial Como serão tratados aposentados e pensionistas? Como será a negociação com as entidades representativas? Haverá fortalecimento ou redução das estruturas públicas? O que acontecerá com os órgãos que já enfrentam déficit de servidores? Quais serviços poderão ser terceirizados, automatizados ou extintos? E, principalmente: quem pagará a conta de um eventual processo de enxugamento do Estado?

Servidor, não escolha apenas pelo discurso

A discussão não precisa ser transformada em torcida organizada. O servidor público não precisa vestir a camisa, usar o boné ou repetir o discurso de qualquer candidato para defender seus próprios interesses.

Precisa conhecer o projeto, comparar propostas, olhar para o histórico e identificar quem defende a valorização das carreiras, a recomposição salarial, a realização de concursos, a negociação coletiva, a Previdência e a manutenção de serviços públicos de qualidade.

Porque, depois que a eleição termina, o discurso fica para trás e as decisões começam a produzir efeitos concretos.

E uma decisão tomada hoje sobre orçamento, carreira ou estrutura administrativa pode repercutir durante anos na vida de quem trabalha e de quem depende do serviço público.

O voto consciente também passa pelo contracheque, pela carreira e pelo serviço que você presta à sociedade.

Por isso, antes de escolher, leia, compare, questione e pesquise. Não basta perguntar quem fala melhor sobre o servidor. É preciso descobrir quem, de fato, apresenta um projeto capaz de garantir futuro para o servidor e para o serviço público.

Defender direitos também é saber reconhecer quem está disposto a defendê-los.

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